quarta-feira, 25 de junho de 2008

A vida como ela é


Estive trabalhando desde segunda em algumas vagas bem operacionais. Entrevistei vários motoristas e ajudantes de motoristas. São pessoas simples, com história de vida algumas vezes sofridas. Conversei com um Sr. ontem que me chamou a atenção. Resolvi escrever sobre ele. Vamos chamá-lo de Sr. X:
Ele é um motorista. Soube da vaga porque divulguei em todas as agências do Sistema Nacional de Empregos da cidade. Me ligou por volta das 3 da tarde. Fiz algumas questões sobre os pré-requisitos da vaga e como ele atendia as necessidades de meu cliente, agendei com ele as 17 horas do mesmo dia. No telefone ele disse: - Dra., vou tentar arrumar dinheiro para ir até aí. Vou dar um jeito e estarei aí na hora marcada.
Ele chegou no horário marcado. Comecei a entrevistá-lo, primeiro com perguntas básicas. Eis o resumo: Sr. X tem 54 anos, é casado e tem 2 filhos. Todos moram na mesma casa. O filho do Sr. X também é casado e tem uma filha. Mais duas pessoas na casa do Sr X. Ele está desempregado há 3 anos. Mora numa casa alugada e tem 6 bocas pra alimentar. E não tem dinheiro. E ninguém da casa dele trabalha. Todos vivem da pensão de sua mãe, que a recebe graças a morte do pai há 10 anos. Ele conseguiu R$ 5,00 para ir de ônibus até o meu trabalho. Tinha a quantia exata para ir e para voltar para casa.
Em termos profissionais, ele tem uma boa experiência. Trabalhou por anos seguidos como motorista de grandes empresas, como Andrade Gutierrez. Tem os cursos necessários para atuar como motorista, mas sua idade é muito avançada. A maioria das empresas se recusam a contratar profissionais com idade muito avançada. Principalmente se sua função não é tão complexa a ponto de não conseguir um substituto que seja mais saudável e barato. .Á medida que conversava com ele, fui percebendo que ele não tinha o perfil para atuar na vaga ofertada. Fui investigando para verificar se ele se adequaria em uma outra oportunidade, para outro cliente, mas ele não preenchia nenhum requisito.
Resumindo: o Sr. X está fora do mercado de trabalho. Ele não tem dinheiro. Seu filho, pelo que pude perceber, não tem o menor interesse em trabalhar. Sua filha mais nova é seu motivo de orgulho e sua neta de 6 meses é a razão de seus dias. Sua filha passou em um curso que ele não soube dizer ao certo qual era, mas concorreu com 80 pessoas. E quando terminar, estará empregada.
À medida que ia conversando com o Sr. X fui me envolvendo com a história dele. Eu quis ajudar. Perguntei se ele tinha dinheiro para voltar para casa. Não tive coragem de dizer que ele não tinha o perfil para a vaga. Não sei se fiz certo. Encaminhei o Sr. X para fazer alguns testes psicólogicos. Achei que isso traria alguma motivação para ele. Hoje pensei em mandar uma cesta básica para a casa dele. Mas o meu lado profissional sabe que isso não é correto. Inseri o currículo dele em nosso sistema e assim que surgir alguma coisa em que ele possa trabalhar, eu vou encaminhá-lo. Vou ajudá-lo da maneira correta.
Meu lado sensível e mais humano ficou muito abalada com a história deste homem. Meu lado racional ficou pensando o motivo pelo qual ele nunca procurou melhorar. Porque nunca quis ser nada além de motorista? Porque não trabalhou para ter uma velhice tranquila? E porque seu filho não faz nada para ajudar? Sua mãe também tem culpa na história. Ela sustenta a família há anos. Ao invés de estimular o trabalho, o desenvolvimento, o crescimento, todos passaram a vida vivendo às custas da pensão de seu falecido pai. Será que eles não pensam no amanhã? Como eles vão sobreviver depois que sua mae falecer e a fonte secar? Tenho dó da filha, motivo de orgulho do Sr. X, que vai ter que sustentar as 6 bocas sozinha. Assim como seu pai fez por muito tempo. Mas hoje ele nao preenche mais seus requisitos...




Um comentário:

O Bom Papá disse...

Outra palhaçada, esse negócio de Sr. X você tirou de um filme sobre uma babá....