quinta-feira, 19 de março de 2009

Dia de São José


Todos os anos, Sr. Francisco espera ansiosamente pelo dia 19/03, dia de São José. Este dia, além de representar o dia do Padroeiro do Ceará, representa a esperança de um bom inverno a cada cearense e nordestino. De acordo com a crendice popular, se chove em seu dia, não haverá seca no sertão. Caso não chova, Sr. Francisco deverá sair de sua casa com sua família e bichos em busca de um lugar para passar o período sem chuva, próximo ao açude da cidade mais perto de seu casebre.
Sr. Francisco é um sertanejo que mora no interior do estado, há 40 km de Canindé. Para chegar até sua casa, é necessário sair da rodovia principal e seguir por uma estreita estrada de terra, na qual é quase impossível passar com um carro de passeio. Sr. Francisco, D. Maria e seus 5 filhos herdaram essa casa do pai de Sr. Francisco. Eles não têm vizinhança. Criam alguns animais e tem uma cachorra, que por ironia do destino, também se chama Baleia, como a personagem de Graciliano Ramos. É claro que Francisco não sabe nada sobre Vidas Secas, pois nunca frequentou a escola, mas ganhou essa cachorra de um antigo patrão e acha engraçado um cachorro com o nome de um bicho d´água morar no meio do sertão cearense. Ele espera que seus filhos tenham um futuro diferente e faz com que caminhem 10 km por dia para chegar até a escola rural da fazenda de seu ex-patrão. Desde que ficou desempregado, trabalha apenas em sua pequena lavoura. Vive de subsistência. D. Maria lava roupa, de vez em quando, e é com esse dinheiro que compram a carne que comem raramente.
Hoje, dia 19, Sr. Francisco acordou cedo. Ele e D. Maria mal dormiram durante a noite, tamanha ansiedade. Acordou os meninos ainda antes do sol nascer. Se vestiram como em dia de festa. As crianças não entenderam ao certo o motivo da apreensão, mas ficaram ajoelhados em frente ao pequeno altar da sala do casebre, rezando para o santo boa parte do dia. Francisco e D. Maria passaram o dia rezando e olhando para o céu, na esperança de uma nuvem de chuva sequer. No início da noite, D. Maria serviu o jantar. O silêncio dominava a casa. Todos sabiam que devido à ausência de chuva, mais dia, menos dia, deveriam sair de seu casebre em busca de sobrevivência. O sono chegou cedo naquela pequena casa. O cansaço tomava conta de todo mundo. Era preciso dormir. Era preciso juntar forças para buscar um lugar para sobreviver à mais uma seca no sertão cearense...

3 comentários:

Marcelo Faccenda disse...

Nossa!!! Realmente um dos teus melhores posts. Dolorosamente poético. Intenso e lírico. Adorei!!!! Teu blogue é realmente demais... Beijos!

Madame Mim disse...

Muito lindo, colega.
Vc escreve muito bem.
Vida dura desse povo, dá uma dor no coração.
Não sabia que São José era padroeiro do Ceará.

(Engraçado, tenho uma cliente que é devota de São José, ela me deu uma imagem de presente - não tenho assim uma religião, sou mezzo espírita, mezzo católica- guardo com muito carinho num lugar especial aqui em casa)

beijos

Bel Lucyk disse...

- Marcelito, que bom que vc gostou! =)Gostei desse texto também, como já te disse. Talvez porque um dos livros que mais gostei de ler foi Vidas Secas...
- Cris, obrigada! Que legal que vc tem uma imagem de São José. Eu tbém não sou católica. Sou espírita e soube dessa história de Sao José quando me mudei pra cá! Beijos