quinta-feira, 9 de abril de 2009

A chuva


Acordou com sede e ao perceber que o copo que deixava ao lado da cama estava vazio, se levantou com raiva de ter que sair debaixo do edredon para buscar água. Mas esse era um vício e não conseguiria dormir sem tomar um gole. Sentia sede o dia todo. E foi em direção ao filtro.
Quando saiu do quarto ouviu o barulho de chuva. Ela amava chuva. Ficou parada por um tempo, da janela da cozinha, olhando o espetáculo, enquanto bebia sua água. O barulho da chuva a acalmava. Trazia tão boas lembranças...
Decidiu voltar para o quarto, desligar o ar condicionado, que impedia de ouvir a chuva, abriu a janela, se deitou e ficou olhando o céu, que clareava a cada raio. O seu sono foi substituído pela nostalgia das lembranças. Lembrou-se de quando ainda era pequena e adorava correr em direção à piscina de sua casa quando a tempestade vinha. A água da chuva dava a sensação de que a piscina, sempre gelada, ficava quentinha. E brincava por horas com seus irmãos e primos de pega-pega, marco polo, de campeonato de saltos, de corrida...
Lembrou-se também de uma vez, em que foi para um carnaval fora de época e que a chuva acompanhou o bloco do início ao fim. E que apesar da gripe que a acometeu no dia seguinte, aquele foi um dos dias mais divertidos da sua vida.
Também veio à mente o dia em que ficou por horas presa dentro de um carro com um namorado, conversando e claro, se beijando, enquanto a chuva não passava e as ruas estavam alagadas. A película dos vidros, a noite e a chuva torrencial impediam que vissem o que estava à frente e também, que os outros vissem o acontecia naquele carro...
O dia em que estava em casa sem fazer nada e decidiu sair para tomar banho de chuva também foi memorável. As pessoas que corriam para se esconder olhavam curiosas para aquela mulher que foi para o meio da quadra, e que de olhos fechados, abriu os braços e com a cabeça na direção do céu, tinha um sorriso feliz no rosto, apesar de estar tremendo de frio.
Uma vez, foram para a fazenda e decidiram aproveitar a chuva. Mas estava muito frio e resolveram beber cachaça para ajudar a esquentar. Deve ter sido engraçado ver aquele monte de gente bêbada feliz, dançando e cantando na chuva. Sorte que dessa vez, não tinha público.
Dizem que a última coisa que ela viu foi o clarão do raio invadindo seu quarto. E que em seguida, as lembranças foram substituídas pela escuridão e pelo silêncio. Mas, dizem também que pelo seu sorriso, deve ter morrido feliz.

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