segunda-feira, 18 de maio de 2009

Lembranças


Terminei de ler "Leite Derramado" de Chico Buarque.
Não li críticas muito positivas sobre o livro, mas como sou a favor de ter opinião própria sobre tudo e,como ganhei de presente de aniversário da minha querida mãe, mergulhei em suas páginas neste final de semana.
A história é sobre um velho internado em um hospital que vai misturando a história de sua vida com delírios e momentos de lucidez. Em alguns momentos, fala com a filha. Em outros, fala com enfermeiras. Uma das coisas que me prendeu a atenção no livro foi justamente esse discurso meio psicótico, sem pé nem cabeça, em que você tem que ficar atenta para identificar em que momento é delírio, em que momento é "real" e com quem o personagem conversa. Sim, durante o livro inteiro só ele fala. Os demais personagens que estão no hospital são meros ouvintes.
Mas preciso confessar também que o livro me trouxe gosto de casa. Sempre que visito minha avó experimento essa sensação de conversar com alguém perdido no tempo. As vezes ela pergunta onde está sua mãe (falecida há anos), depois fala com saudade dos tempos em que íamos para a fazenda. Algumas vezes não nos reconhece. Em outros, pergunta por alguém que está na sua frente. Em alguns momentos, essa situação me traz um emaranhado de sentimentos tão grande que eu não consigo encontrar uma ponta para desenrola-los e descrevê-los de forma linear: é tristeza, compaixão, raiva, impaciência, amor, carinho... é uma situação complicada.
Algumas situações são muito engraçadas, como no dia em que ela perguntou várias vezes de quem era o aniversário que ela e meu avô estavam indo. Ele repetia pacientemente que era natal. Lá pelas tantas, ele soltou (meu avô não é das pessoas mais pacientes que conheço e é, com certeza, uma das mais sarcásticas que já vi): a gente tá indo pro aniversário de Jesus!
Geralmente ela tem uns lampejos de lucidez e fica com ódio quando percebe que alguém está brincando com ela. Nesses momentos, ela geralmente chora porque reconhece que ela está completamente fora do tempo, que não lembra de quase nada, que tem se sentido cansada.
Nessas horas, tenho vontade de abraçá-la e dizer que vai ficar tudo bem.
Daí ela me abraça, me deseja felicidades e que eu tenha um marido tão fabuloso quanto o dela. E, sim, esse é um momento muito engraçado.
Gosto de lembrar da minha vó nos tempos áureos dela. Em que ela juntava a família inteira para fazer pamonha na fazenda. E que sempre sobrava para os pequenos catarem cabelo do milho. Ou catar amora para fazer geléia. O leitinho que ela fazia de manhã cedinho, quando dormíamos lá, também era uma delícia. Ninguém nunca conseguiu fazer um tão bom quanto. Minha vó nunca foi de fazer muitos carinhos. Mas eu sei que esses mimos eram a forma dela dizer que nos amava.

5 comentários:

Madame Mim disse...

Lindo texto.
Sinto muita falta da minha vó.
Quase chorei lendo.
Vó é tudo de bom tbém!
beijos

Indiara Oliveira disse...

Belo texto, amiga!
Também estou terminando de ler este livro e gostando muito.
Acredita que este era o seu presente de aniversário, que não te entreguei... Ahahaha

Bel Lucyk disse...

- Cris, ando sentindo saudade da minha vó.E lembrei dela durante todo o livro. Família é tudo de bom! =)
- Amiga, PAGODINHO! Vc tá lendo o presente que eu ia ganhar? PAGODINHO! kkkkkk amo

Marcelo Faccenda disse...

Sau avó acha que você vai arranjar um marido???? deve estar muito doente mesmo... Kkkkkkkkkkkkk!!!!!

Bel Lucyk disse...

Marcelo - HÁ - HÁ - HÁ!
Quando eu casar vc vai entrar de pajem levando o Zeca no colo, que vai levar as alianças! =p