domingo, 6 de setembro de 2009

As regras naquela casa eram rígidas.


As crianças, depois de serem colocadas na cama pelos pais, não podiam mais perambular pela casa.
Numa noite qualquer, com a ausência do pai, sua mãe colocou os filhos para dormir sozinha. Naquela noite, a menina acordou com sede e viu que estava sem água no quarto. Já era tarde. E atrevessou o corredor, passou na ponta dos pés em frente ao quarto dos pais, chegou até a sala e passou pelo quarto onde eram guardadas as roupas limpas. Na copa, estremeceu quando viu a luz que vinha da cozinha: tinha alguém acordado. Parou por uma fração de segundo. Resolveu voltar. As regras naquela casa eram rígidas. Ouviu um soluço. Um choro doído. Com curiosidade de menina, chegou cuidadosamente para não ser percebida e viu sua mãe, sentada numa cadeira, com as mãos na barriga, como se estivesse se abraçando. O choro fazia ela se encolher, se curvar. A criança correu até a mãe para ver o que estava acontecendo. A mãe a abraçou e continuou chorando. Limpou as lágrimas, beijou a testa da filha e disse que estava tudo bem. A menina tomou sua água. Sua mãe tentava esboçar um sorriso no rosto. Estava frágil, mas foi dura quando disse que ela tinha que voltar pra cama, era tarde e no dia seguinte tinha aula cedo. As regras naquela casa eram rígidas.
Sem entender direito o que estava acontecendo, pegou mais água e voltou para o quarto. Enquanto se afastava da cozinha, ouvia os soluços da mãe, que voltava a chorar. Quando o dia amanheceu, ouviu seu pai chegando em casa. Não pregou o olho naquela noite. Na hora do café da manhã, todos agiram como se nada tivesse acontecido. As regras naquela casa eram rígidas.

2 comentários:

Vivian disse...

...aí eu me lembro da vovó
quando nos dizia com o olhar
por trás dos largos óculos:

"quietinhas...
isso não é assunto para
criança"

as regras naquela casa
também eram rígidas.

beijo, querida!

Bel Lucyk disse...

Nossa, já ouvi muito esse "nao é assunto de criança" rs rs
beijos querida!