domingo, 6 de fevereiro de 2011

O andarilho

Outro dia fui buscar minha irmã no trabalho e enquanto a esperava, um cara parou ao lado da janela aberta do banco do passageiro e falou comigo. Estava olhando pro outra direção e quando ouvi a voz me chamando, me virei e vi um homem de aproximadamente 30 anos, bonito, mas com a pele bem maltrada pelo sol. Ele usava roupas velhas e um pouco sujas e carregava uma mochila cheia de remendos nas costas. Enquanto conversava, pude perceber que ele falava sem qualquer erro de português e de forma muito clara.
Ele pediu licença e disse que não queria dinheiro, mas não tinha almoçado naquele dia. O homem queria saber se eu tinha comida ou se eu podia comprar alguma coisa pra ele comer. Bem, eu nunca tenho comida na bolsa e  minha irmã estava chegando a qualquer momento, então eu não tinha a menor intenção de sair pra comprar qualquer coisa pra alimentá-lo.
Perguntei quanto era o prato de comida e ele disse que na rodoviária de Brasília uma marmita custa R$ 7,00, quantia que eu não tinha em notas trocadas. Aliás, só tinha uma nota de R$ 20,00 e normalmente eu teria dito que não tinha nada, porque era o único dinheiro que tinha, mas peguei na minha bolsa a nota e a levei em sua direção.
Ele me olhou surpreso e disse que não precisava daquilo tudo, mas eu falei que com aquele dinheiro, quase três dias de almoço estavam garantidos. Agradecido, o cara pegou os R$ 20,00 e me disse:
- É muito bom ajudar as pessoas. Eu já fiz isso no passado, sei que faz bem.
E saiu. E enquanto eu via aquele andarilho subindo as escadas em direção ao calçadão que dá acesso à rodoviária do centro da cidade, fiquei imaginando o que teria acontecido com aquele homem...queria muito ter perguntado: "o que aconteceu com você? como você perdeu tudo? o que deu errado?"
Mas as hipóteses ficaram só na minha imaginação...

9 comentários:

Elaine disse...

Nossa, Bel. To passada com tanta coincidência. Dei 10 reais pra um cara HOJE no ônibus e fiquei com as mesmas perguntas. Geralmente eu dou moedinhas, mas hoje, qdo vi, já tinha dado os 10. E sabe o mais doido? Saí de casa pra comprar uma coisa que custava R$ 60. Quando cheguei lá, advinha por qto a moça me vendeu? Exatamente. R$ 50. Esse mundo é mesmo uma roda viva. bjobjobjo

Marina disse...

Também fiquei curiosa. E com uma pena surda desse homem que perdeu tudo. O mundo não é justo.

Bel Lucyk disse...

- Elaine, que coincidência mesmo!Principalmente o valor do desconto que você teve na sua aquisição! =O
E viva Chico!
- Marina, continuo curiosa! E também acho que o mundo não é justo...

Roberta Oliveira disse...

As vezes nós achamos que nossa vida será sempre a mesma e que nada será retirado dela apenas colocado, e é ai que entra essa historia e nos faz perceber o quanto estamos vuneraveis e que se hoje estamos por cima amanhã pode ser o contrario!Adorei seu blog,to começando um agora, se der me segue tá?
robertameyce.blogspot.com.br

Mulher ao Cubo disse...

Quem sabe não foi por escolha própria que ele saiu por aí? Sabe-se lá o que passam as pessoas...Que bom que você pôde ajudar. Melhor sempre ajudar, do que precisar da ajuda, não?

Bel Lucyk disse...

- Roberta, obrigada pela visita!
Eu pensei nisso também, de como as coisas são impermanentes! Vou passear no seu blog também! =)
E vou te dizer uma coisa, já que está começando, escrever é uma delícia!
- Mulher ao Cubo, esse acontecimento foi assunto de mesa de bar em dois grupos diferentes. Em um deles, a teoria foi essa. No outro, o pessoal achou que o cara tivesse perdido tudo por causa de drogas. E pela minha cabeça, inicialmente, só pensei que ele poderia ser mais um dos casos que vemos em jornais, de pessoas que perdem o emprego e vão perdendo, aos poucos, tudo... e vão morar em abrigos... enfim... sabe-se lá o que foi, né? beijos

Vivian disse...

...quem sabe não são os
caminhos de Deus para nos
testar a alma?

quantos anjos disfarçados
habitam entre nós?

muitos beijos, querida!

Larissa Bohnenberger disse...

Eu não costumo dar dinheiro pra ninguém NUNCA, mas acho que para este cara eu também teria dado. Até porque ele te abordou pedindo comida, e não dinheiro, o que já é uma garantia de que realmente o que ele tem é fome.

A verdade é que eu já vi tanta coisa absurda e que me deixou tão revoltada, que nem paro pra ouvir mais as pessoas que me abordam na rua.

Uma vez, quando criança, vi um gurizinho abordar uma mulher na saída do supermercado pedinho DINHEIRO PARA COMPRAR COMIDA. A mulher não tinha dinheiro, mas deu pra ele dois pãezinhos franceses (eu já ia escrever cacetinho, eita, gaúcha!) daqueles recém saídos do forno, quentinhos ainda... dá vontade de comer puro, sabe? O piá esperou a mulher virar as costas e jogou os pães no chão, atrás do pneu de um carro. Depois disso eu concluí que essa gente pode pedir dinheiro por mil motivos, mas fome co certeza não é o problema deles.

Acabei crescendo e aprendi a nunca dar dinheiro pra ninguém. Mas se pedem comida diretamente, aí a história é diferente.

Bjs!

Bel Lucyk disse...

Larissa,
eu fico p da vida quando ouço histórias como essas do garotinho... mas por outro lado, penso que o importante é fazer minha parte sempre e se eu puder, claro, ajudar sem me preocupar muito com o que o outro vai fazer depois, sabe?
Mas confesso... não é fácil agir assim!
beijos