sexta-feira, 1 de abril de 2011

Serenata!

Cresci numa típica cidade interior: todo mundo se conhecia, todo mundo sabia da vida de todo mundo, as crianças brincavam a tarde toda na rua, as janelas ficavam abertas durante a noite... enfim, a cidade era tranquila... não me lembro de casos de assaltos e afins até minha adolescência. Luzicity era o lugar mais seguro do mundo! E simpático:
Do outro lado da rua do sobrado em que morávamos tinha um restaurante do amigo de meus pais, do "Seu" Mauro. Eu adorava atravessar a rua pra comprar cigarros pra minha mãe porque sempre ganhava uma caixa de bubbaloo de morango. Era a glória.
Lá eu comi chanclich pela primeira vez. E até hoje sinto "gosto" infância quando como esse delicioso queijo acompanhado de uma cervejinha gelada. Mas Seu Mauro, além de dono de um dos restaurantes mais adorados da cidade, era dono de um saxofone e tocava maravilhosamente bem (e acredito que ainda toque).
E como a cidade era tranquila e segura, ele saia pelas ruas da cidade, no meio da noite, fazendo serenatas na companhia de seu fiel escudeiro, Temístocles, que entoava o violão. Na teoria isso era lindo. Eu acordaria ao som de música de primeira no meio da noite e iria para a sala com meus pais, que abriam a porta para receber a dupla e ficavam tomando cachaça e comendo aperitivos enquanto conversavam e ouviam mais um clássico.
Na prática, eu tinha verdadeiro HORROR às serenatas do Seu Mauro. Não que eu não gostasse da música. O problema é que as visitas sempre aconteciam de madrugada e nessa época eu tinha que acordar todos os dias as 5:20 da matina, me arrumar correndo e esperar o ônibus escolar, que sempre chegava as 5:40.
Meu sono sempre foi precioso e eu nunca gostei de ser incomodada, principalmente quando minhas horas de repouso eram tão cronometradas pra aguentar o batidão do dia seguinte. E as notas do Seu Mauro ecoavam no meu quarto e eu tinha certeza que eles tocavam ao lado da minha cama. Até hoje não sei quanto tempo eles ficavam lá, pois sempre tinham mais casas para visitar no meio da madrugada. Mas eu sempre tinha a impressão de que durava a noite inteira.
Hoje em dia lembro desses episódios com saudades e ele nunca soube o tanto que aquilo me incomodava (e só a mim, todo mundo lá de casa adorava). Sempre tive muito carinho e respeito pelo Seu Mauro e hoje sei que esse é um tempo que nao volta mais. Tenho certeza que se ele retomasse as serenatas da madrugada, eu me levantaria feliz no meio da noite, seria a primeira a abrir a garrafa de cachaça e a passar a madrugada ouvindo música e conversando borracha.

3 comentários:

Nana disse...

Gente, que saudaaade das serenatas do Seu Mauro... Ele sumiu, nunca mais tive notícias. Mas tb, do jeito que Luzilândia está, capaz de roubarem o sax enquanto ele toca. Mais uma vítima, ainda que indireta, da violência em Luzi. Lastimável...

P.s: adorei o texto. Tão bom relembrar aquele tempinho onde a única preocupação era esperar o Seu Mauro acabar de tocar pra gente dormir....rs

Marina disse...

Apesar do meu sono ser sagrado, eu ia adorar ouvir as serenatas.

Bel Lucyk disse...

- Elaine, eu tambem tenho saudades das serenatas dele, eu juro! eheheh
- Marina, hoje em dia eu certamente agiria diferente...

beijos pra vcs =)