sábado, 29 de outubro de 2011

Nas alturas


Eu já quis ser comissária de bordo.
Aliás, eu não sei se eu queria ser aeromoça ou só quis fazer um curso preparatório  pra ver se dava um rumo na minha vida.  Isso foi há vários anos, acho que tinha acabado de entrar na UnB.
Eu fazia psicologia, devia estar no primeiro semestre, uma amiga fez sua inscrição e eu resolvi fazer também. Nem lembro se concluímos o curso, mas lembro que eu nunca tinha pisado num avião até então.  As viagens em família eram sempre de carro, mas eu tinha a perfeita sensação de que voar era uma delícia.
Ainda nos primeiros semestres de UnB, voei pela primeira vez. Meu pai morava em Fortaleza já há alguns anos. Nas primeiras vezes em que fui visitá-lo, enfrentei três cansativos dias de ônibus, até que um belo dia ele mandou uma passagem para eu  passar as férias  (ou alguma greve sem fim da UnB) com ele. Inaugurei minha vida nos ares de Varig, sentadinha na primeira fileira, depois de tomar um polaramine pra relaxar e apreciar a viagem. E assim fiz. Desde aquela viagem eu gostei muito da sensação de estar tão perto do céu, que eu sempre gostei tanto de olhar. Depois dali, nunca mais parei de viajar, fosse para visitar meu pai ou pra qualquer outro destino.  E sempre fiz questão de ir sentadinha à janela, pra ficar como uma criança, com o rosto grudado no vidro, prestando atenção em tudo o que acontecia ao meu redor e abaixo de mim.
Por isso, quando resolvi mudar de emprego neste ano, e um dos requisitos era disponibilidade para viajar, não pensei duas vezes:  eu vou! Eu adoro viajar. E assim foi pelos primeiros três meses,  viajei constantemente para Salvador, Recife, Vitória, São Paulo... e adorava!
Mas eu não sei dizer por que um belo dia, mas lembro exatamente quando foi, comecei a sentir medo. Neste dia, fui ao Rio de Janeiro, num bate volta, assistir a um dos melhores shows de 2011, Paul McCartney. De inicio, imaginei que estava tendo crises de labiritinte durante o vôo. A sensação era exatamente a mesma que eu senti  quando passei por este desagradável episódio: eu via o mundo rodando.  E posso  dizer que ver o mundo girando quando se está a 36.000 pés não é a coisa mais agradável do mundo. E eu só me acalmava quando olhava para o lado e via todo mundo tranqüilo, aí tinha certeza que aquilo estava se passando só na minha cabeça.
Defendi a labirintite situacional por algum tempo, até que um dia uma amiga me lembrou:  se você tem crises  de labirintite, ela não se restringe aos vôos, ela te acompanha o tempo todo.  E é verdade, eu não queria admitir pra ninguém, muito menos pra mim mesma, que eu estava criando pânico de voar.  E acho passei dois meses pensando em mudar de emprego todas as vezes que eu estava dentro de um avião. Era realmente desesperador.  Mas eu tinha um único problema: eu amo o meu trabalho, eu adoro o que eu faço e passadas as escassas horas dentro de um avião, eu tinha certeza que queria continuar fazendo o que eu estava fazendo.  E a única decisão a ser tomada era a de enfrentar esse medo.
E foi assim que fui parar na sala de um psiquiatra, que me explicou que provavelmente eu estava com algum problema em relação `a produção de serotonina, e por isso, as crises de annsiedade. Ao final da consulta, saí com uma receita de um ansiolítico, o rivotril, para usar antes das viagens.
Confesso que tomei o remédio, antes dos vôos, durante um mês, aproximadamente, até voltar a me sentir mais a vontade.  Ainda hoje, durante pouso e decolagem (meus momentos prediletos há algum tempo), ainda sinto uma certa ansiedade.  Mas o fato é que o remédio e o meu propósito de não me deixar ser dominada por este medo, tem me ajudado bastante.
E eis que na última segunda-feira, quando voltei de uma maratona de vôos (Brasília – Salvador – Recife – Fortaleza – Brasília), eu consegui dormir pela primeira vez.  E confesso: isso me fez ganhar meu dia.  Nesta quarta já estava de novo dentro de um avião, agora a caminho de Vitória e também me mantive calma e cochilei por alguns minutos.
E agora, neste exato momento, estou dentro de um avião, a caminho de casa, voando ao lado de uma tempestade de raios e estou  tranqüila, escrevendo este texto  porque me deu uma vontade imensa de postar alguma coisa no blog e mais vontade ainda de dividir o que eu passei nos últimos meses. E  contar que com muito autocontrole, persistência (e, claro, algumas gotinhas de rivotril) e muita força de vontade, eu sei que, aos poucos, estou vencendo esse medo idiota que eu criei do nada.
Sei  que não é fácil, mas é tão boa a sensação de vencer uma barreira, seja ela qual for. Talvez, um dia, eu resolva fazer a mesma coisa e enfrentar meu medo de aranha, mas isso já são outros quinhentos: eu não tenho o menor interesse em trabalhar com esse bicho peçonhento.

3 comentários:

Andreia & Vinicius disse...

Xuxu que corajosa! Que orgulho de você! Parabéns por mais essa conquista! Conta sempre comigo! És muito especial! E que continuem nossas viagens! Bjs

Beto Bueno disse...

Vencendo suas barreiras Parabéns !

Larissa Bohnenberger disse...

Que loucura, né?

Bem, eu adoro viajar de avião entre aspas. Entre aspas porque viagens são sempre cansativas, principalmente pra quem vai de classe econômica. Sempre tem uma criança chorando que não te deixa dormir, e dependendo da companhia as poltronas são desconfortáveis e apertadas, sem contar a comida que não é grande coisa. Se bem que com relação à comida nem faz muita diferença pra mim, pois enjoo em qualquer objeto em movimento. Quando estou voando meu nome é plasil! Rsrsrsrsrs! Mas simplesmente amo os momentos de decolagem e aterrissagem. Principalmente este último.

Acho louvável você não se entregar ao medo e tentar fazer tudo o que está a seu alcance para superá-lo. Até porque, estar viajando, conhecer lugares novos, é uma das melhores coisas da vida!

Super beijos!